sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

DESPRENDIDA CENTELHA





À flor das mãos
no espelho dos sentidos
quando te despes de tudo
para mover as águas
onde se purificam
os gestos mais íntimos

há um rio
que se transporta

desprendida centelha
que alumia as margens

para te ver passar


sábado, 3 de janeiro de 2015

NEM TODOS OS CÃES SÃO DE BARRO



                                                                                                     (reconstruído)



Após longos tempos na claustrofobia da cidade, por entre arestas, frinchas, esquinas e becos, decidiu arrumar tudo e partir. 
Comprou um cão na berma da estrada e um punhado de terra. Construiu uma casa com vistas largas, um canil e um galinheiro. Desenhou no chão um espaço para a horta e começou a desbravar silêncios no silvestre rumor das árvores. Aprendeu a assobiar com o vento. 
Levantava-se cedo para ver o nascer do sol. Dormia à tarde e levantava-se ao desnascer do dia. Trabalhava à noite ao som do jaze. 
De quando em vez visitava o café do senhor Abílio para saber como plantar uma couve, que bolbos floriam em cada estação e acerca do míldio a propósito de umas videiras que medravam dispersas no terreno. Conhecia o nome dos pássaros pelo seu canto. 

Nunca mais quis saber da cidade. 

Um dia, após longos tempos, inconformado com o sequestro no paraíso, o Dique, que era de barro, disse-lhe: 

- Pinta-me de azul, estou com saudades do mar. 
- Também tu cão?



sábado, 27 de dezembro de 2014

BOAS JANEIRAS


                                                                         mensagem que se repete



Fundidos
à míngua de relâmpagos
que se vejam
ateados à passagem
de mais um ano

dezembrando

boas janeiras



segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

VOU ALI E JÁ VOLTO


                                                                  DALI
                     

                                                       
Tudo pelo melhor
em família e outros amigos
no mastro mais alto


                                           

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

DEZEMBRANDO






À míngua de pássaros
subimos a pulso
a nossa escarpa preferida
só para ouvir
íntegro o vento inteiro

sem mãos nos ouvidos
nesta desordem organizada
disse-te

és a minha pátria
aquilo que não sei

À míngua de pássaros
nesta ilha sublimada
de sonhos e neblinas

dezembrando

se tivéssemos um barco
quase nada seria inútil