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Aceitei o desafio do meu neto para escrever uns textos como se fossem garatujas
Avô - está ali uma senhora a chamar pela cadela da vizinha.
Só pode ser a vizinha.
A minha cadela saltou a vedação e anda por aí com o vosso cão.
Timóteo chama o Oli.
O Oli está debaixo da romãzeira a brincar com a cadela da vizinha.
A vida é uma surpresa minha senhora. Ontem dissemos ao Oli para respeitar o silêncio da sua cadela. Como vamos fazer?
Eu vou buscá-la . Importa-se que salte a vedação?
E foi assim, contra a vontade dos dois, separados, cada um ficou no seu espaço.
Avô - porque não ficaram cá todos?
Temos que respeitar o espaço de cada um.
A cadela tem dona, o Oli não.
Cabisbaixo, rabo entre as pernas e orelhas murchas chegou o Oli.
Não fiques triste.
Não fico triste? Eu estou triste.
Diz ao teu avô que não quero mais o paraíso.
Prefiro a rua da nossa cidade
eufrázio filipe
aceitei o desafio do meu neto para escrever uns textos como se fossem garatujas
Timóteo diz ao Oli que na cadela da vizinha ninguém toca.
Ele só queria que não estivesse isolada.
Certo - mas ele pode correr atrás dos coelhos que por aí andam a comer tudo na horta.
Avô - disseste que estávamos no paraíso .
Timóteo - os paraísos têm regras. Aqui todos somos livres como se estivéssemos numa prisão com as chaves no bolso.
O Oli deve respeitar o silêncio da cadela da vizinha.
Vou falar-lhe.
Amigo - continua a ladrar para as estrêlas.
És um bom tenor, mas para cantar em conjunto, tens de aprender
a ouvir os pássaros.
eufrázio filipe
aceitei o desafio do meu neto para escrever uns textos como se fossem garatujas
Dormiste bem?
Passei pelas brasas. O galo fartou-se de cantar.
Estamos numa casa de campo para descansar.
Mas tu também ladras às estrêlas.
Tens razão, nós é que invadimos o seu espaço.
Na cidade dormia bem com ruído, aqui oiço pássaros de todas as cores e protesto.
Oli - quem sabe um dia na diferença da voz, daremos um concerto, fora do coreto, sem gente estranha a ouvir.
Se for em família até podemos convidar a cadela da vizinha.
A cadela da vizinha não canta - vive só.
Por vezes sós mas nunca isolados.
eufrázio filipe
Aceitei o desafio do meu neto para escrever uns textos como se fossem garatujas
Chegámos. Era Outono.
As videiras estavam podadas e a casa ao fundo à nossa espera.
Visitámos os galinheiros. Aplaudimos um bando de rolas, apanhámos uma romã e olhámos em frente para o castelo.
O silêncio afagava todo o espaço como se estivéssemos no princípio do mundo.
Avô - aqui só falta o jardim que eu não tenho na escola.
Tens razão. Vamos plantar sonhos.
Estás de acordo Oli?
Eu sou um cão da cidade com vistas para o mar.
Aqui só vejo terra, muita terra, muita terra.
Logo à noite vou ladrar para as estrêlas me orientarem nesta aventura.
Oli - queres dormir no galinheiro?
Um cão como eu só pode dormir a céu aberto.
Mesmo que chova no paraíso.
eufrázio filipe
Aceitei o desafio do meu neto para escrever uns textos como se fossem garatujas
Oli - tenho uma novidade.
O avô tem um espaço rural para nós. Não é muito grande mas dá para todos.
Queres vir?
A quinta tem portão?
Tem mas não é para te prender é para os outros não entrarem.
Quando vamos à quinta?
Quando despontar uma nesga de sol.
Então vamos amanhã. Ontem à noite quando ladrava para o céu, vi uma estrêla a brilhar nos meus olhos. Foi o sinal, porque nem todas as estrêlas olham para mim.
E foi assim.
No dia seguinte lá fomos a caminho do paraíso.
eufrázio filipe