terça-feira, 8 de setembro de 2015

UM HINO ÀS TEMPESTADES






Na tremulina deste mar
que não se consente agrilhoado
mesmo que seja breve o azul
no perfume das águas
mesmo que o cíclico pássaro
de plenas asas
adocique o bando
não te vejo a abandonar a luz
clara silvestre dos relâmpagos

o ar que respiras
pelas narinas do vento
continua a movimentar-se
agita as dunas
grita nas falésias
contra a absolvição dos destinos

submerso no chão das maresias
um dia virás à tona  tanger um hino
à ternura das tempestades 

o brilho dos teus olhos
de tão órfãos
ainda terão uma pedra

para atirar às estrelas



Eufrázio Filipe
"CHÃO DE CLARIDADES" 

terça-feira, 1 de setembro de 2015

TIMBRES DE OUTROS MARES







Neste tempo de vindimas
decepadas as videiras
temos por hábito desenhar
lábios nos lábios
um mar arável

No chão da escarpa
pisamos uvas
provamos o sangue derramado
de asas abertas
uma vida quase inteira

e assim acordamos
a fazer versos
ou quase nada
anoitecidos a madrugar
timbres de outros mares


Eufrázio Filipe
 

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

AQUI NESTE .






Na ausência de relâmpagos
que se vejam
inteiros
nas crinas do vento

hasteamos bandeiras
de cores lúcidas

Aqui neste .
ancorados na memória
afeiçoamos pedras
desenhamos o recorte da serra

colhemos sons passos e lábios
até desvendarmos
os olhos dos pássaros


Eufrázio Filipe

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

NÓMADAS






Nómadas
no sossego da preia-mar
aves flamejantes
fazem seus ninhos

entram no poema

caminham na água
pelos nossos pés

Nómadas
neste chão que flutua
despontam pétalas
sem impecilhos

tão leves
no teu regaço

embriagam-se com mensagens
no outro lado do cais


Eufrázio Filipe

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

SOMBRA DE LUZ


                                  original com alguns versos meus já publicados porque "tudo está definitivamente inacabado"
                                            


A cantarolar metias nos púcaros
uma feira de barro
mas quando te vi assim
quase inteira
vindimada
muito antes dos relâmpagos
por sobre o palco das videiras
recebi-te de asas abertas

Folha ante-folha
chegaste ao alpendre
onde os  milagres são fáceis de explicar

chegaste sombra de luz
a mais um concerto de pássaros

os cães uivaram para as estrelas

e por um instante
salvámos o que parecia
ser eterno

Eufrázio Filipe