sábado, 8 de agosto de 2015

AFLORAR CLARIDADES


                                           


Neste espaço
aberto a todas as sedes
decepei uma árvore seca
mas deixei-lhe dois braços
erguidos
onde os pássaros silvestres
poisam em coro

Debruçado no vão da escarpa
precipitei os olhos
desprendi-me no canto

Neste espaço
quando o sol escapa dos céus
é frequente
aflorar claridades
"vozes ao alto"

e se não for a cantar
ai se se não for a cantar


Eufrázio Filipe

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

INCÊNDIO DE PALAVRAS






Nesta ilha desprendida de pétalas
o silêncio quando fala
desbrava caminhos
desponta na água
profana metáforas

e por uma côdea
uma fêmea
um território
os cães amigos
lutam até à morte

os insectos
distraídos
ágeis 
azuis
voam no magro pomar
rente à folhagem

e ao fim da tarde
andarilhos
poisam latidos
no meu ombro preferido
zumbidos
breves incêndios de palavras



Eufrázio Filipe

segunda-feira, 27 de julho de 2015

PELOS CAMINHOS DA ÁGUA





Com a serra às costas
pelos caminhos da água
sussurram lábios
remos e passos

amantes de trinados
afloram este jardim de claustros
a luz refulgente
ancorada no cais

pelos caminhos da água
lá estavam
inverosímeis pássaros soltos

os teus pés nos meus


Eufrázio Filipe

sábado, 11 de julho de 2015

VOU ALI E JÁ VOLTO






Nesta vida alcantilada
entenderam por bem
as andorinhas nidificar
no ninho que desejei
construído no alpendre
por cima da mesa
onde escrevo
para os pássaros

De tão grato
não me permito
perturbar o seu bailado
nem com o silêncio
das palavras

Vou ali e já volto


Eufrázio Filipe

segunda-feira, 6 de julho de 2015

COMO SE FOSSEMOS LIVRES E SOMOS




Nos gestos mais simples
é possível conquistar
um coração de ave
rasgar a crosta das palavras
agitar o fulgor da vida
a grinalda de cristais
onde corre o sémen
rumoroso e fértil

nos gestos mais simples
é possível espalhar sementes
incendiar fronteiras
partir mar adentro
como se fossemos livres 
e somos

nos gestos mais simples
é possível resistir
rasgar silêncios
na voz dos pássaros
e deixar que as palavras
num sopro de brisa
poisem por sobre as águas
no corpo da poesia

como se fossemos livres
e somos


Eufrázio Filipe