domingo, 3 de maio de 2015

AMAR UMA PEDRA


                                                        republicado



Todas as fendas da água
dão guarida ao movimento e se desnudam
enquanto a pedra partilha os seus esconderijos

na respiração do azul
onde os peixes se eternizam
partem anémonas para os silos dos sonhos
mas só algumas pautas musicais
quebram o ritmo das marés
quando as mãos se tocam
para atear fogueiras dentro de nós

todas as fendas da água
levedadas
entoam hinos
e se transformam na síntese de outros cânticos

só assim se explica como é possível
amar uma pedra


 Eufrázio Filipe
 

domingo, 26 de abril de 2015

NÃO HÁ PÁSSARO QUE ATIRE UMA PEDRA







Na sombra das varandas
engalanadas
pelas ruas estreitas
desfilam ânforas
à vista dos barcos

relâmpagos contidos
na voragem do tempo

sempre que te ouvem
resgatam um cravo
inscrevem o teu nome
no mais íntimo da pele

mas não há pássaro
que atire uma pedra
contra o vento

 Eufrázio Filipe

quinta-feira, 23 de abril de 2015

FESTA DE BELOS VENDAVAIS


                                                         republicado



Estávamos num conflito de areias
desterrados no deserto
quando choveu
nas nossas bocas 
uma certa água
e os cravos povoaram 
as ruas

mas foi por uma fresta
escancarada 
que te descobri
silvestre e breve
a resistir
no chão onde se despem as pétalas
que voam
sem limites

ainda hoje chove nas nossas bocas
uma certa efusão de cores
perfumes tresmalhados
e areias

mas és tu ABRIL
no mais íntimo dos silêncios
a minha festa de belos vendavais


sexta-feira, 17 de abril de 2015

QUE FIZESTE DAS NOSSAS FLORES?



                                                           publicado em 2008



As árvores viajam
na sombra do verde
um sussurro de folhas
e tu foges dos ramos

amanheces tão distante
que nem os meus olhos
descobrem os teus gestos

as árvores viajam
onde acontece a flor do fruto
no chão
e os pássaros sem amos
deixam que a sombra se rebente

meu povo
que fizeste das nossas flores?


quarta-feira, 15 de abril de 2015

NOTÍCIAS DA BABILÓNIA






A Babilónia, os babilónicos, Hammurabi, recriados com o olhar atento do Manuel Veiga, conduzem os seus textos de intervenção política e social, oferecem-nos uma prosa deliciosa, poética satírica, onde revemos da sua escarpa, um país que é o nosso, à beira-mar betonado. 

Democrata impoluto, sem verdades absolutas mas fortes convicções, o meu amigo tem motivos e chão para desbravar novos textos, nesta Babilónia que promete à saciedade, alternâncias conhecidas de poderes, até ser outro dia. 

Com talento, palavras em carne viva e outras metáforas - Manuel Veiga construiu e revelou um painel onde a ficção subscreve a realidade. 

Como não podemos mudar de babilónicos, só ajudar, fico na minha escarpa a aguardar o teu inesgotável e acutilante fio de meada. 
Nós merecemos. 

Abraço fraterno.