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A Babilónia, os babilónicos, Hammurabi, recriados com o olhar atento do Manuel Veiga, conduzem os seus textos de intervenção política e social, oferecem-nos uma prosa deliciosa, poética satírica, onde revemos da sua escarpa, um país que é o nosso, à beira-mar betonado.
Democrata impoluto, sem verdades absolutas mas fortes convicções, o meu amigo tem motivos e chão para desbravar novos textos, nesta Babilónia que promete à saciedade, alternâncias conhecidas de poderes, até ser outro dia.
Com talento, palavras em carne viva e outras metáforas - Manuel Veiga construiu e revelou um painel onde a ficção subscreve a realidade.
Como não podemos mudar de babilónicos, só ajudar, fico na minha escarpa a aguardar o teu inesgotável e acutilante fio de meada.
Nós merecemos.
Abraço fraterno.
publicado no PRESOS A UM SOPRO DE VENTO
Eu sei que tudo se move
até a sombra
em pleno voo
mas quando me sentei
na escarpa
para ouvir
um concerto de pássaros
e os vi
tão debruçados
só de os ver
a voz me doeu
Eufrázio Filipe
publicado no PRESOS A UM SOPRO DE VENTO
A minha escarpa
tem uma janela
escancarada para o mar
mesmo por sobre
barcos de passagem
latidos de cães
e metáforas
Neste sítio fustigado
onde nidificam
ventos e relâmpagos
ouvi um grito
em carne viva
mais real que os verdadeiros
soltei-o
e as palavras voaram
a fingir de pássaros
Eufrázio Filipe
Abri janelas fechei portões
soltei os cães
mas lá no fundo
onde medra a oliveira
vi claramente despontar
não sei o quê
como se as palavras ocultas
fossem perfumes
de cores
em desordem
no chão que pisamos
Abri janelas
para ouvir a chuva
num sopro de vento
não sabia
que te chamavam Primavera
eufrázio filipe
reconstruído
Hoje vi com os meus olhos
uma santa mulher
asfixiar um pássaro nas mãos
só para desenhar no chão
a dor que sentimos
chamei-a
para deixar nas areias
um beijo côncavo
até a memória arder
os últimos barcos
e as algas discernirem
de olhos abertos
todos os ritmos das marés
chamei-a
para esgrimir contra
a invenção dos destinos
erguer o seu corpo
recolher todos os grânulos disponíveis
Hoje vi uma mulher amada
esculpida na praia
a despontar nas areias
inacabada flor de Abril
Eufrázio Filipe