domingo, 12 de abril de 2015

A VOZ ME DOEU

                                          publicado no PRESOS A UM SOPRO DE VENTO



Eu sei que tudo se move

até a sombra
em pleno voo

mas quando me sentei
na escarpa
para ouvir 
um concerto de pássaros

e os vi
tão debruçados

só de os ver

a voz me doeu


Eufrázio Filipe


terça-feira, 7 de abril de 2015

A FINGIR DE PÁSSAROS



                                        publicado no PRESOS A UM SOPRO DE VENTO



A minha escarpa
tem uma janela
escancarada para o mar

mesmo por sobre
barcos de passagem
latidos de cães
e metáforas

Neste sítio fustigado
onde nidificam
ventos e relâmpagos
ouvi um grito
em carne viva
mais real que os verdadeiros

soltei-o
e as palavras voaram
a fingir de pássaros



Eufrázio Filipe


quarta-feira, 1 de abril de 2015

PRIMAVERA





Abri janelas fechei portões
soltei os cães
mas lá no fundo
onde medra a oliveira
vi claramente despontar
não sei o quê
como se as palavras ocultas
fossem perfumes
de cores
em desordem
no chão que pisamos

Abri janelas
para ouvir a chuva
num sopro de vento

não sabia
que te chamavam Primavera


eufrázio filipe
 

sexta-feira, 27 de março de 2015

INACABADA FLOR DE ABRIL



                                                                      reconstruído


Hoje vi com os meus olhos
uma santa mulher
asfixiar um pássaro nas mãos 
só para desenhar no chão
a dor que sentimos 

chamei-a
para deixar nas areias
um beijo côncavo
até a memória arder
os últimos barcos
e as algas discernirem
de olhos abertos
todos os ritmos das marés

chamei-a
para esgrimir contra
a invenção dos destinos
erguer o seu corpo
recolher todos os grânulos disponíveis

Hoje vi uma mulher amada
esculpida na praia
a despontar nas areias

inacabada flor de Abril


Eufrázio Filipe

terça-feira, 24 de março de 2015

HERBERTO HELDER


                                                             1930- 2015          


A poesia foi o grande apeadeiro da sua vida. Poesia que reescrevia em cada livro para conforto das palavras. Poeta de galáxias, escarpas e mares infinitos, foi visita assídua de quotidianos, silêncios em voz alta. 
Morreu o Herberto de tantos ofícios,  vive a sua poesia. 

Obrigado por todos os instantes.