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És o meu (a)mar
mesmo que os cães ladrem
sem dono
na praia deserta
desgrenhado na orla
dos belos precipícios
lavras escarpas
arredondas arestas
despojas-te de salivas
nos póros das areias
És o meu (a)mar
voz diáfana de cristais
onde despontam vertebrados
barcos remos e passos
as minhas mãos
nas tuas
flores de sal
A deshoras
vi barcos soltos
perdidos de azuis
e outros mares
colhiam beijos sem mácula
num afago de limos
amarados ao vento
inscritos nas paredes do cais
cumpriam uma rota
contra todos os destinos
quase (e)ternos
a desvendar palavras
em pleno voo
menos livres
que os pássaros
Livres para lá dos limites
num traço esgalhado a pulso
esculpidos no arvoredo
dormem como anjos
a fingir de pássaros
desenham barcos
no pomar das marés
para que tudo aconteça
passo a passo
por sobre as águas
sopram contra o vento
incansáveis
prisioneiros do sonho
Neste tempo antiquíssimo
de soluços e mãos dadas
as palavras sem abrigo
com asas enxutas
dedos rendilhados
procuram uma luz sem ameias
alento
para o mar crescer
nos teus olhos
Neste tempo de alaúdes
resiste ao pranto
o relógio de pêndulo
nas paredes da escarpa
desnuda-se a romãzeira
Na safra de outros mares
anoitecidas as brumas
um pássaro suicidou-se
por um grão de areia
flamejante no lado avesso da vida
nem uma lágrima deixou
no berço
onde medram os aloendros