sábado, 22 de junho de 2013

ROUBEM-ME TUDO






Roubem-me tudo
os lápis de cores
as minhas flores preferidas

mas não me roubem
os olhos por onde vejo
um mar que não se verga

Roubem-me tudo
menos um verso

 

terça-feira, 18 de junho de 2013

PÁSSAROS LIVRES DARDEJAM NOS MASTROS





Num sopro de remos e passos
tento dar às palavras
a leveza das cinzas

silêncios expostos
derramados
na fissura das pedras
para agigantar em campânula
as paredes da casa

mas quando abro o portão
do cais
e solto os cães
para ouvir a escarpa
só os pássaros livres
não deixam de cantar

dardejam
nos mastros
para os barcos se moverem

 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

ATÉ AO INICÍO DAS MÃOS



                                                         ( Reeditado)



Já tinham colhido as flores do jardim
mas tu cumprias um caminho
desaguavas como um rio
e eu não sabia que respiravas
à flor da pele
por todos os póros

Muito antes de me ajudares
a plantar uma árvore
procuraste a margem

Tão líquida por entre os dedos
construíste um corpo uníssono
contra todos os destinos

Encontrei-te com um simples toque
numa folha de papel
a vaguear no espelho das águas

dedos nos dedos
até ao início das mãos


 

sábado, 8 de junho de 2013

CORPO DE ASAS





Queria ver uma multidão
uníssona
em cada gesto teu
e vejo

Queria que tivesses um oceano
organizado
no azul dos olhos
e tens

Queria que fosses um corpo de asas
mas insistes em chamar às coisas
apenas o nome que elas têm

 

domingo, 2 de junho de 2013

A MEMÓRIA DAS PEDRAS





Quando a noite luz
ateio-me
num abraço de limos
escrevo em branco
onde se movem
sombras de pássaros
pétalas soltas
mares desgrenhados
na cadência do relógio de pêndulo

Pelas frinchas
oiço perfeitamente
o vento que faz
o uivo dos cães
o ranger das gáveas
o despontar em surdina
de novas flores no cais

Escrevo em branco
para não ficarem sem memória
as paredes da casa