quinta-feira, 9 de maio de 2013

ESPAÇO PARA CANTAR





Nesta aldeia
de mares imperecíveis
e sábios tristes
íntegro um pássaro do alto
entendeu por bem
atiçar o fulgor dos timbres
regressar ao cais
soltar os barcos
e partir
nas cordas vocais
de uma guitarra

Nesta aldeia
refúgio
à flor das águas

ainda há espaço para cantar

 

segunda-feira, 6 de maio de 2013

ETERNAMENTE A RESPIRAR





Nem todos os jacarandás
rebentaram em Maio
mas tu cumpriste
o ritmo das estações
contra o tempo que faz

vestiste-te de púrpura
com cheiro a hortelã
sentaste-te no meu silêncio preferido
dedos esguios em flor
a crescerem nas teclas do piano

Nem todos os jacarandás
rebentaram em Maio
porque não existem horas para amar

porque é possível pintar
uma flor com a boca
na tua boca

e ficar assim
eternamente a respirar



 

terça-feira, 30 de abril de 2013

ATÉ SER DIA





Nua de tudo
como se fosses jovem
e és
a espargir silvos
em sobressalto
tão azuis
os cardos despontam
nos jardins de Maio

Nua de tudo
por sobre as pedras
não basta voar
é preciso ser pássaro
mais alto que o vento
à solta

transportar aromas
mãos cumplicidades
e um arado
soletrar pelos dedos
a vertigem da luz
no sulco dos barcos

até ser dia

 

sexta-feira, 26 de abril de 2013

ETERNOS A PINTAR SOMBRAS




Regressámos ao sítio
onde crescem silvestres buganvílias

foi aí em recato
que rasguei o que julgava ser um poema

lá no cimo da Arrábida
em visita guiada
aos azuis do Sado
no mais íntimo dos silêncios
observei a anatomia
dos teus gestos
quando te revelaste
quase ninfa
a invadir impossíveis
ao alcance dos dedos

ali ficámos eternos
a pintar sombras
que se alumiam

a inventar flores amanhãs e outros relâmpagos

 

sábado, 20 de abril de 2013

ABRIL CHÃO DE CLARIDADES





        Muitos foram os amigos que me brindaram com a sua presença na apresentação pública do meu Chão de Claridades. A todos estou grato - aos presentes e aos que se manifestaram de outro modo.

Transcrevo uma passagem da minha intervenção no encontro

... e foi assim ...
um dia escrevi - o amor é revolucionário e uma senhora que esculpi nas areias da praia, logo se levantou  para me dizer
O amor é revolucionário? Interessante. Importa-se de me explicar mais claramente a sua ideia?
- e eu respondi que sim
Meu amor, nesta ilha rodeada de sonhos, se tivéssemos um barco, ai se tivéssemos um barco, como seria inútil este mar - lutaremos como somos e onde estamos.
A senhora de pé nas areias adiantou que as realidades quando ficcionadas, por vezes são mais verdadeiras - e ainda acrescentou - gostei de o ouvir, só é pena ser comunista.
Olhei-a nos olhos e respondi que não queria salvar o mundo, só ajudar.
A poesia é um prazer para quem escreve, um desafio para quem lê.
Tudo se move, até o vento.
Por vezes um poema vale por um verso e um verso uma eternidade.

A senhora, ainda de pé disse não ter entendido mas que as palavras eram lindas.
... e foi assim...
neste Chão de Claridades, por mares nunca antes desgrenhados que subimos à nossa escarpa preferida para colocar um beijo no mastro mais alto da vida.
Foi preciso mexer na memória das areias, celebrar relâmpagos, sol, pássaros, e algumas pedras com coração por dentro para lhe dizer ao ouvido que os poemas mais bem conseguidos, ainda não foram escritos ... mas vou tentar senhora.


A noite carregava
a sua própria sombra
mas nós carregávamos uma noite
que não era a nossa
quando uma luz de sol
despontou nas paredes do cais
para ergueres as pálpebras
e veres claramente
espalhadas no chão dos barcos
o que pareciam ser
as últimas flores do Inverno

Tu sabias
que estavam a medrar
novas marés
quando subiste à gávea
dos barcos ancorados
para confirmar o rosto branco
da madrugada

Tu sabias
que alguém andava
a lavrar desertos
para nascer uma flor
mais vermelha que os teus lábios