quarta-feira, 20 de março de 2013

LEVO À BOCA OS TEUS LÁBIOS






Nos mastros mais altos
tão doces em bando
passavam a cantar
para alívio da voz

só faltavas tu
réstia de vento

Acendi um fósforo
fechei os olhos
abri os olhos
para ver quase tudo

mas quem sou eu
para alumiar caminhos?

Quando invoco relâmpagos silvestres
 é para assustar os pássaros
adormecidos no baloiço das marés

levo à boca
os teus lábios
e assim ficamos
desgrenhados
a respirar

 

sexta-feira, 15 de março de 2013

UM SOL EM MOVIMENTO





Por entre margens e pontes
transportavas um rio
à cintura

não preciso procurar

as tuas mãos
já habitavam a casa

mas quando um sopro
matinal
à hora dos pássaros
te desfolhou os cabelos

fiquei preso
no espelho dos teus gestos

Transportavas um rio
à solta
por entre os dedos

nos olhos
um sol
em movimento

 

segunda-feira, 11 de março de 2013

NA BOCA DAS SEMENTES



                                                                    
                                                                  Álvaro Cunhal (desenho na prisão)


A noite estava tão fria
desencantada
anoitecida
nos ramos das árvores

e os cães uivavam
para as estrêlas

Íntegros por sobre as pedras
no caminho das águas
traçávamos linhas
a carvão em folhas de papel
ousávamos transgredir
à tona dos lábios
o fulgor alumiado
dos cristais

Estava tão frio
mas nas ruas despontavam coros
centelhas de cravos
pavios
na boca das sementes
para alimento dos pássaros

 

sexta-feira, 8 de março de 2013

SEM MUROS NEM AMOS





As andorinhas chegaram mais cedo
ao seu ninho preferido
o de sempre

Os senhores do mundo
que não são os senhores da vida
designaram dias
para todos os santos

criaram
não o dia das andorinhas
mas o dia da mulher

Na verdade dos desertos
há flores nas areias
mulheres que valem por si

atravessam oceanos
rasgam o chão

São as mulheres que amo
com asas
sem muros nem amos



 

domingo, 3 de março de 2013

ATÉ A LUZ SE FAZER DIA




Com os barcos às costas
num sopro de vento
de porto em porto
a dobrar esquinas
a desbravar mares
a comer pedras sem destino
construtores de lonjuras
irreprimíveis

para lá das trapobanas
contra torvelinhos
silvestres
a domar escarpas
ao sabor das aves
que de tão abruptas
só poisam nos mastros

Num sopro de vento
andamos por aí a desbravar
arestas ruínas tempestades
até as águas correntes
se libertarem das crinas
invadirem o chão
para desassossego das sombras

De porto em porto
até a luz se fazer dia