sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
domingo, 17 de fevereiro de 2013
A DESBRAVAR UM POEMA
No espelho das águas
sacudi amarras
a preguiça das marés
construí um barco alado
desci a escarpa
sentei-me no cais
de costas para o mar
que mais parecia um rio
a desaguar fráguas na praia
Não chovia
em redor dos teus olhos
mas quando te recolhi
incomensurável e linda
uma brisa
sentou-se na cadeira vazia
e nós começámos
a lavrar areias
a desbravar um poema
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
PESTANEJÁMOS UMA VÍRGULA
Lá onde todos os azuis
se reunem para cantar
e os olhos chegam dulcíssimos
nem sempre acontece
uma pauta de timbres
mas tu trazias no corpo
um rasto de asas
na voz um azul distante
que despertou os silêncios da casa
Neste jardim de corais
é possível beijar as pedras
pestanejámos uma vírgula
e tudo ficou mais claro
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
A SENHORA DAS MEIAS PRETAS
oleo de Paul Lourenzi
Ao som do Gregorian Chant, no Monastery of Montserrat, estava eu a saborear o cd , a ver na minha frente, caírem aves do céu, que mais me pareciam estrelas.
Na verdade estão sempre a cair aves neste chão, que as fecunda, recolhe, sepulta.
Na verdade neste chão de asas e mares desgrenhados, flutuamos tão leves que nem a morte sente os nossos passos.
- Cão de barro?
- Perdão, as estrelas também se conquistam, mesmo as que caem do céu. Foi precisamente por isso que decidi apaixonar-me pelo seu cão de barro.
- Decidiu?
- Sabe, até para amar é preciso ser competente e tomar decisões. É verdade decidi apaixonar-me pelo seu cão de barro e solicitar a sua presença no meu gabinete de trabalho. Acredite que tenho necessidade de partilhar o poder no meu último despacho.
Especulei com a memória e recordei uma outra história que inventei a que dei o título de Sim Senhora Ministra.
Entretanto a lua estava cheia e um vulto elegantíssimo percorria a azinhaga desde o portão até à casa.
Obviamente o portão estava no trinco e o cão preso.
O Dique- observador de silêncios gregorianos - permitiu que o vulto se aproximasse, mas não deixou de roer a corda.
No chão da azinhaga - um som cadenciado - uma espécie de toc-toc-toc na direcção da casa.
Agora sim mais nitidamente, o vulto parecia um espaço habitável, uma mistura de sombras eróticas.
Exibia quase provocadora um caminhar de ancas sofisticado e o clássico aroma do Chanel nº5 trepava as árvores, adocicava os pássaros.
- Senhor, não é um assalto. Tomei a liberdade de invadir pacificamente o seu espaço para lhe fazer um convite personalizado.
- Foi um risco senhora. Aqui quem morde é o dono.
No dia e religiosamente na hora - lá estava eu com o meu cão de barro, no seu faustoso gabinete de trabalho.
Decidida, varreu para o chão toda a papelada, arquivada à vista na larga mesa de reuniões.Colocou na aparelhagem um cd e o reóstato no lusco-fusco . Pegou docemente no Dique.
Subiram para o tampo da mesa e aí dançaram soltos, como as estrelas, cabeças a tilintarem nos cristais do lustre.
Exausta largou o cão e convidou-me para um moscatel roxo.
Sentada no sofá, saias arregaçadas, colocou uma bela caneta de tinta permanente , cravejada de brilhantes e aparo de ouro legal , entre os dedos do pé direito e assinou devagar mas com determinação o seu último despacho oficial.
" a partir de hoje, sou a senhora das meias pretas "
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
NUM RASTO DE ASAS
Tão lúcidas as abelhas
embebedavam-se na flor
dos medronheiros
zumbiam alcantiladas
por sobre os barcos
na orla do cais
para adocicar "destinos"
Com a serra às costas
"ousavam impossíveis"
escreviam palavras improváveis
e nós acendíamos fósforos
para a luz invadir
a memória das sombras
recolher âncoras
partir numa lufada
a desgrenhar o vento
Tão lúcidas as abelhas
quando se levantam
num rasto de asas
mãos nas mãos
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