quarta-feira, 30 de maio de 2012

MAIS LIVRES QUE OS PÁSSAROS


A letargia dos barcos
surpreende todos os silêncios
neste cais
onde nada é inútil
mas tudo é tão frágil

e nada mais acontece

Neste cais os pássaros
em desassossego
banham-se à sombra dos mastros
espantam-se de tanto se olharem
na concha das nossas mãos

e nada mais acontece

até o cais ser um cristal
mais forte que o seu brilho
golpe de asas e seara
contra todos os destinos

Nesse dia seremos
no espelho da água
mais livres que os pássaros



quinta-feira, 24 de maio de 2012

SEM MURAIS




Colho-te quando tudo
está tão pardo no cais

Colho-te nos lábios a fragrância
de braços abertos
como se nestas rotas a maresia
escrita à mão
fosse metáfora
arremesso de palavras
e sons

Colho-te as velas recolhidas
à pergunta de um sopro
barcos ancorados
a gatinhar nos mastros

até o grito se organizar
em coro
e as águas correrem livres
sem murais


sexta-feira, 18 de maio de 2012

NEM FLORES NEM DESTINOS




Estávamos no fresco trinado da Primavera
quando uma ave desconhecida
subiu mais alto
que o mastro das bandeiras

e logo hoje choveu
uma lágrima dos teus olhos

Estávamos no trinado da Primavera
o vento quase não se movia
mas nós carregávamos
a serra às costas
por esses mares desnavegados
a decifrar azuis
e outros destinos

Nós sabíamos que não existem destinos
e as flores não se oferecem
conquistam-se a partir do chão
até as pétalas se desfolharem

Só não sabíamos
porque choveu uma lágrima
dos teus olhos


sexta-feira, 11 de maio de 2012

CHOREI COM OS CÃES



                                                     Publicado no meu "caçador de relâmpagos"




Conduzia na estrada do Barranco do Bebedouro - serpenteada, estreita, iluminada pela lua cheia.
De repente, um vulto na minha rota. Não pude evitar. Só o vi pelo retrovisor.
Saí do carro e ajoelhei-me junto do animal, um rafeiro alentejano, lindo, que ainda me olhou nos olhos e disse baixinho:
- É pá, mataste um cão sem dono.
A lua cheia inundava o silêncio e eu levei-o ao colo para dentro do carro.
Quando cheguei a casa, só pude fazer o que fiz.
Chamei o Dique e encarreguei-o de convocar todos os cães da aldeia. O funeral foi marcado para a meia noite.
Todos compareceram.
Solidários, quatro amigos mais corajosos ofereceram-se para cavar a sepultura, num canto da horta, onde espontâneas medravam hortelãs.
Todos reunidos no silêncio.
Um uivo comovido despoletou um choro colectivo.
Só o Dique não chorou. Trazia na boca uma papoila que largou
em cima da sepultura.


sábado, 5 de maio de 2012

UMA NESGA DE SOL






Quando passa um sopro de lume
no espanto das marés
pétala a pétala
se desfolham primaveras
neste chão

mas nunca se perde uma flor
em carne viva

o olhar terno das pedras
abruptas
na voz silvestre da escarpa

Quando passa uma nesga de sol
puxada a remos
na expressão humana
de um barco
respiram à tona outros voos
devagar

te dou um beijo