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Desenho de ÁLVARO CUNHAL
Ao entardecer
um bando de pássaros
desenhou
na palma das nossas mãos
uma vida inteira
e tudo parecia azul
no seu linguajar
mais alto que o voo
e assim aconteceram
duas linhas paralelas
prolongadas
que se encontram
aonde os olhos não mentem
Ao fim da tarde
tudo é mais claro
até o branco
nos lábios da areia
Publicado no meu CAÇADOR DE RELÂMPAGOS
Enquanto aquele anjo permanecer nas areias, bem pode o vento soprar.
O cão ou o velho?
Lentos, trôpegos, com os pés a tracejarem os caminhos de sempre, todos os dias aquelas almas percorriam memórias.
O cão - mais velho que o dono - era o guia, a sua bengala de cego.
Pela orla da praia, desde a gruta onde viviam até à colossal duna, abrupta sobre as águas, as aves marinhas mergulhavam a pique e esbracejavam só para os salpicar.
Lá iam, serenos, livres, sem palavras - imensos.
No ar, o sussurro dos silêncios embalava-lhes os passos num concerto de maresias.
Chegados ao topo da montanha era sempre assim - o velho afagava as orelhas do cão e o cão lambia-lhe as mãos.
Sentados - respiravam infinitos - o perfume das algas - adormeciam no tempo.
Ao longe, muito ao longe, alguém de um barco bramou
Fuja - a duna vai desmoronar-se.
Imperturbável, respondeu baixinho para não acordar o cão
A duna sou eu?
Seixal - foto de Augusto Cabrita
Entram devagar na Ponta dos Corvos
por janelas escancaradas
respiram fundo nos mouchões
nidificam com as aves
por instantes quedam-se
para os barcos escutarem timbres
no brilho forjado das varandas
com sardinheiras
que se despem ao espelho
No remanso
quando a gaivota mais antiga
expressa sinais silvestres
retiram-se lentas
afagam margens
mostram o chão
que já foi de areias
e apanhadores de seixos
Na bruma das pedras
plangentes moinhos de marés
registam os ciclos vertebrados
das águas doces
Nem todas as lágrimas
caem dos céus
tantas são as madrugadas
na tua boca ao relento
desejos ocultos que alumiam
fogueiras tranças
baladas e ancas
caminhos longos
Quando sobes escarpas
a pulso
descobres raizes improváveis
por onde corre um rio cigano
e há velas latinas
que remam barcos
contra o vento
azuis que se desfolham
para a chuva cair apátrida
nos teus olhos
As mãos não são para dar
mas nós crescemos de mãos dadas
ainda hoje
quando o vento sopra
deciframos sons por gestos
dedilhamos acordes
vergamos remos
contra o uivo
no bojo dos barcos
de mãos dadas
nos oráculos do mar
povoámos bancos de areia
apeadeiros
onde vigilantes
repousam aves apócrifas
que se levantam
à hora do entardecer