domingo, 18 de março de 2012

A DUNA SOU EU?

                                                       
                                                       Publicado no meu CAÇADOR DE RELÂMPAGOS

Enquanto aquele anjo permanecer nas areias, bem pode o vento soprar.
O cão ou o velho?
Lentos, trôpegos, com os pés a tracejarem os caminhos de sempre, todos os dias aquelas almas percorriam memórias.
O cão - mais velho que o dono - era o guia, a sua bengala de cego.
Pela orla da praia, desde a gruta onde viviam até à colossal duna, abrupta sobre as águas, as aves marinhas mergulhavam a pique e esbracejavam só para os salpicar.
Lá iam, serenos, livres, sem palavras - imensos.
No ar, o sussurro dos silêncios embalava-lhes os passos num concerto de maresias.
Chegados ao topo da montanha era sempre assim - o velho afagava as orelhas do cão e o cão lambia-lhe as mãos.
Sentados - respiravam infinitos - o perfume das algas - adormeciam no tempo.
Ao longe, muito ao longe, alguém de um barco bramou
Fuja - a duna vai desmoronar-se.
Imperturbável, respondeu baixinho para não acordar o cão
A duna sou eu?

domingo, 11 de março de 2012

ÁGUAS DOCES



                                                           Seixal - foto de Augusto Cabrita



Entram devagar na Ponta dos Corvos
por janelas escancaradas
respiram fundo nos mouchões
nidificam com as aves

por instantes quedam-se
para os barcos escutarem timbres
no brilho forjado das varandas
com sardinheiras
que se despem ao espelho

No remanso
quando a gaivota mais antiga
expressa sinais silvestres
retiram-se lentas
afagam margens
mostram o chão
que já foi de areias
e apanhadores de seixos

Na bruma das pedras
plangentes moinhos de marés
registam os ciclos vertebrados
das águas doces


terça-feira, 6 de março de 2012

AZUIS QUE SE DESFOLHAM



Nem todas as lágrimas
caem dos céus
tantas são as madrugadas
na tua boca ao relento

desejos ocultos que alumiam
fogueiras tranças
baladas e ancas
caminhos longos

Quando sobes escarpas
a pulso
descobres raizes improváveis
por onde corre um rio cigano

e há velas latinas
que remam barcos
contra o vento

azuis que se desfolham
para a chuva cair apátrida
nos teus olhos


 

sexta-feira, 2 de março de 2012

À HORA DO ENTARDECER





As mãos não são para dar
mas nós crescemos de mãos dadas

ainda hoje

quando o vento sopra
deciframos sons por gestos
dedilhamos acordes
vergamos remos
contra o uivo
no bojo dos barcos

de mãos dadas

nos oráculos do mar
povoámos bancos de areia

apeadeiros

onde vigilantes
repousam aves apócrifas
que se levantam
à hora do entardecer


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

MAR DE PÉTALAS



                                                               Óleo de Vladimir Volegov                                                                

                                                   

Recolhida num instante
eras o rio
a desaguar em flor
no espelho das águas

desfolhavas-te

excessiva e bela

num mar de pétalas