domingo, 28 de dezembro de 2008

ATÉ SER OUTRO DIA

Óleo de Vincent Van Gogh


Aparentemente só uma lágrima fria e um súbito nevão assumem a responsabilidade pelo bloqueio às vias alternativas.

Mesmo assim - atraídos pela música de Strauss que irradiava pelas frinchas de uma janela, atrevemo-nos a desaguar nas redondezas da mesquita.

Sentado na caixa de polir, meio desconchavada, fazia sorrir os sapatos passageiros e os seus braços estavam cansados do vai-vem e as suas mãos eram pomada e os seus dedos tremiam e o seu desejo era dar um estalido com o trapo, capaz de arrancar uma palavra de conforto.

Com olhos de esmeralda a rolarem pelo chão - em busca de outros sapatos, só via pés descalços - e a caixa gemia.

- Estou a conhecê-lo?

- É bem possível - eu não fugi de mim. Retirei-me temporáriamente para este exílio, porque sois um país pobre e aparentemente livre.

- Os pobres não são livres.

- Depende do seu código de valores. Eu combato paraísos artificiais e em nome da minha liberdade, beijo uma flor, engraxo-lhe os sapatos.

- Estou a conhecê-lo.

- Talvez. Quando um homem é notícia após ser agredido por quem nos ama, só a poesia pode decifrar a metáfora. Talvez seja o seu caso.

- Não insistas.

- Posso insistir?

- Pode.

- O senhor é Muntazer al- Zaidi.

- Meu caro desconhecido, quando Galileu, em defesa da sua teoria, jurou que a Terra girava em torno do Sol, foi condenado. Só muito mais tarde o Vaticano admitiu ter errado na sua condenação.

- O senhor morde nos sapatos do dono.

- Não. Eu estou orientado para Al-Aqsa. Em nome da minha liberdade, só me vergo para beijar uma flor ou engraxar-lhe os sapatos. Até ser outro dia.

Retirámo-nos - ainda com os acordes de Strauss.


terça-feira, 23 de dezembro de 2008

CÃO QUE PENSA

video

ENTRE BELÉM

E S.BENTO

HÁ UM CÃO QUE PENSA

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

O NATAL VAI COMEÇAR


O Inverno faz as pessoas recolherem às cavernas para melhor se amarem.
Sacode-se nas árvores penadas, inventa polícromos arco-iris, manifesta-se lúcido contra a perfeição, faz trejeitos ao rosto. Ri-se - nos olhos de toda a gente.
Lá no alto, por cima das nuvens de chumbo, levanta a voz dos relâmpagos e às primeiras pancadas de Molière, abre o pano. Vem ao palco e anuncia.
- Senhoras e senhores - " a fábula, é uma pintura onde podemos encontrar o nosso retrato".
- Que dia é hoje?
- Silêncio.
- Senhoras e senhores - ides assistir à mais fabulosa história da minha estação.
As luzinhas furta-cores são as mesmas. O mesmo barro, o mesmo pinheiro, o mesmo musgo, as mesmas pedras. A mesma estrelinha na carapinha do mesmo presépio. O mesmo rebanho, os mesmos pastores, a mesma palha, o mesmo bafo.
Ides ser cúmplices dos animais, dos anjos que vão cair pelas chaminés nos sapatinhos dos meninos ajoelhados - até ao momento em que o galo cantará.
Lá fora as ruas estarão um sonho - até nos olhos colados dos outros meninos - nas montras do céu.
Tudo será luz nas casas iluminadas, nos corações vibrantes - menos nos olhos sem abrigo.
Vai chover. Amai-vos uns aos outros.
Eu sou o Inverno e o Natal vai começar.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

COMBATER A INDIFERENÇA


Completam-se hoje 60 anos da publicação do texto
"Declaração Universal dos Direitos Humanos"
a que alguns distraídos chamam dos direitos do homem.
Trata-se de um texto utópico - incumprido - talvez
por isso mobilizador da vontade dos povos, contra todas as formas de tirania, mesmo as que são exercidas por Estados ditos democráticos.
60 anos evocativos que também no nosso país exigem
combate contra todo o tipo de discriminação exposta -
nomeadamente contra as mulheres, as crianças e os idosos.
É urgente combater a indiferença, porque não basta manifestar a solidariedade com as vítimas .

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

SOPRO O VENTO






Sitiada por um deserto de sílabas

lá onde a escrita nos esconde

dormes por cima do olhar

no outro lado das videiras



És o meu castelo

a hastear todos os dias

uma nuvem contra o tempo

um cristal que se alimenta

do próprio brilho



Risco um fósforo

ateio as mãos

para desvendar silêncios pendentes



Subo às ameias do teu corpo

para recuperar as minhas pedras

sopro o vento

para te ver dardejar

por sobre as areias

beber do teu vinho


quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O CAOS DO SODRÉ




Tinha pássaros de esmeralda nos amendoados olhos vivos, " the four season " de Vivaldi, quando as mãos esguias se expressavam por gestos e nós lhe respirávamos o sorriso franco nos contornos do rosto. Exibia um sinal lindo no lado esquerdo dos lábios sensuais e uma longa madeixa de cabelo, meticulosamente entrançado, cor da hulha, pendia-lhe
no decote generoso, por entre os seios, alongava-lhe
o corpo balzaquiano.
Fluente de palavras, não disfarçava o sotaque do leste
latino, nem a simplicidade com que se vestem as pessoas
cultas.

Estávamos na esplanada da centenária Brasileira do
Chiado, afagados pela estátua a Fernando Pessoa.

- Como se chama?
- Ofélia.
- Ofélia?
- Sim, Ofélia Dumitriu. Sou romena, nascida em Malaia,
uma aldeia distante de Bucareste. Sou professora de história de arte, mas ainda não encontrei emprego neste
país.

- Interessante, eu fui ministra da cultura.
- Eu sou apicultor.
- Apicultor?
- Sim, apascento abelhas.
- Que faz a Ofélia desempregada?
- Tal como Fernando Pessoa, " se depois de eu morrer
quiserem escrever a minha biografia, não há nada mais simples. Tem só duas datas - a da minha nascença e a da
minha morte. Entre uma e outra, todos os dias são meus."

- Parece conhecer bem o nosso chão.
- Faço de guia, sonho por conta própria e muito risco.
Arrisco.

Foi assim que viajámos. Deixámos a Brasileira do Chiado e percorremos a rua do Alecrim, uma janela de ar
fresco, rasgada em declive para o Tejo. A Ofélia lá nos foi
descrevendo com detalhes, a história da estátua - hoje uma réplica - de Eça de Queirós, o traçado da rua desde o
terramoto de 1755, o edifício de Siza Vieira, os alfarrabistas - até desaguarmos na Praça do Duque Terceira, uma
das zonas mais chiques da cidade oitocentista.

- Ali ficava o Grand Hotel Central, que Júlio Verne
frequentou e onde parte de "Os Maias" foram inspirados.
A tarde já se tinha esfumado. O sótão do mundo estava coberto de nuvens. Soprava uma brisa fria que nos cortava a pele de mansinho. O rio tossia e nós recolhemo-nos num bar irlandês.

- Os senhores são bem-vindos, mas a Ofélia não pode entrar.
- Desculpe mas esta senhora é nossa convidada. porque lhe está a vedar a entrada?
- A Ofélia sabe que tem muitos pássaros nos olhos.
Sentámo-nos na esplanada. Tomámos chá de S.Roberto.
Em silêncio a Ofélia ouviu-me dizer o texto de Eça no qual se inspirou o escultor Teixeira Lopes.

- " sob a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia" .

Entretanto começou a chover. Uma goteira impertinente que se esgueirou do toldo, derramou-se no texto. As palavras - uma a uma - caíram no chão que ficou azul - todo azul, neste caos do Sodré

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

CONGRESSO DO PCP


UMA VEZ MAIS AS PINTAS NOS IS

PARA QUANDO O POVO NOS QUISER